1/21/2007

As Sociedades Fantásticas I

Proponho agora uma série de ensaios que publicarei de forma esparsa, entre artigos não correlatos, de forma que sua publicação (ou leitura) não fique enjoativa. Bem, pelo menos é o que tentarei.
O objetivo principal destes ensaios é mostrar que o ser humano padece por causa de sua estupidez, mais claramente, seus principais problemas sociais decorrem pura e simplesmente de falta de comunicação. Não a comunicação usual à qual nos referimos corriqueiramente, mas comunicação num sentido mais amplo, comunicação não somente de palavras flutuantes num oceano de oxigênio e nitrogênio, ou pigmentadas sobre celulose industrializada, ou ainda acesas em fósforo ou diodos frios, desprovidas de qualquer significado emocional. A maioria de nós se choca com a fome, se revolta com as injustiças, mas lendo é sempre com os outros. A maioria de nós é incapaz de projetar os sentimentos comunicados de forma que façam parte de seu ser e esta insensibilidade é o cerne desta exposição.
Para avaliar o que causa o problema na humanidade proponho um conjunto de experiências imaginadas, no qual tomamos uma sociedade fantástica e gradativamente a aproximamos da real. Desta forma poderemos avaliar quais problemas surgem neste caminho e em decorrência do que.
Como o problema proposto pode ter sua origem na comunicação, nada mais racional do que tomar o caso extremo de boa comunicação, ou seja, a telepatia. Sociedades humanóides fantásticas telepatas nos são distantes, pois a telepatia entre humanos é sem comprovação acadêmica forte e de fato, temos apenas alguns relatos esparsos sobre esta capacidade. Entretanto, entre alguns animais, há comprovação científica, como com cães por exemplo. É fato que mantém algum vínculo telepático com seus donos e isto pode ser comprovado experimentalmente.
Explicações para isto não faltam. Algumas tangem ao absurdo, ou ao esotérico, ou à realidade. Nascem geralmente em pontos obscuros ou mal entendidos da Física moderna ou bruxaria antiga ou em ambas, mas o fato é que algumas quase fazem sentido. Uma delas é a teoria dos campos morfogenéticos, que visa explicar não somente este fenômeno, mas toda uma gama de problemas insolúveis em Biologia e se confirmada, pode revolucionar toda a Física.
O fato é que a telepatia existe e já que não estamos falando de sociedades humanas, podemos usá-la como guia e meta para a discussão.


As Sociedades Telepatas Homogêneas


Por sociedade telepata homogênea entendemos um conjunto de organismos cuja organização mental é transparente entre todos, ou seja, não existem traços individuais. Cada organismo tem acesso total e irrestrito a qualquer informação presente na rede, ou seja, em qualquer outro organismo.
Analisemos as conseqüências sociais que esta disposição biológica produz. A primeira é: não existem indivíduos, logo não existe hierarquia social. De fato, uma hierarquia acontece quando indivíduos sentem a necessidade (legítima ou não) de comandar ou apoderar-se de outros indivíduos. É de se notar que um organismo não teria vantagem em oprimir o outro, pois seria como se nós quiséssemos oprimir nossos braços, que vantagem teríamos? Que pretexto daríamos? Não nos é doloroso quando tentamos? É isso que um organismo destes provavelmente sentiria ao oprimir um semelhante, dor.
Segunda: não existem classes sociais. Classes sociais são constituídas de indivíduos que possuem mesmo status dentro de uma hierarquia social. Não há especialização, todos sabem tudo. Não há estratificação.
Terceira: não existe o conceito de morte como nós o entendemos. Não existe a perda do ente querido por dois motivos: primeiro porque não há ente querido que seja outro senão você (não há indivíduos), segundo porque tudo o que um organismo sabe, todos sabem e nenhuma informação é perdida por ocasião da destruição de um componente.
Quarta: não existe religião. De fato, o que é a religião senão uma forma que encontramos para explicar o que acontece com o indivíduo no além-túmulo e nos confortarmos com as diferenças entre aqui e lá. As religiões surgiram para acalmar aqueles que se desesperavam com sua destruição, para localizar o indivíduo em si mesmo (confortando-o em horas difíceis) e para localizar o indivíduo na hierarquia social. Não há morte psicológica, não há indivíduo, não há hierarquia social, então não há religião.
Está claro que não existe tradição, família, ou propriedade, ou disputas por terra, energia, recursos hídricos, guerra, paz, amor, ódio, disputas por credo, cor, salário, enfim, tudo aquilo que nos preocupa tanto.
As únicas diferenças entre nós e eles é que eles sabem o que o outro sente, como se fosse ele mesmo a sentir e sabem o que o outro sabe como se fosse ele mesmo a saber. Em outras palavras, a coletividade tem comunicação perfeita.
Assim sendo, a comunicação perfeita é a solução para todos os problemas sociais que a humanidade enfrenta.
Obviamente não espero que um dia cheguemos a tal ponto, no entanto este ensaio aponta numa direção interessante; talvez possamos resolver boa parte de nossos problemas se conseguirmos comunicar às outras pessoas não somente palavras objetivas, mas sentimentos. As pessoas não têm idéia (nem se preocupam, em geral) do que as outras estão sentindo.
Futuramente analisaremos sociedades telepatas cada vez mais próximas da nossa, para que possamos averiguar em que ponto cada problema surge.

1/06/2007

Estamos Preparados Para Entender a Física Moderna? (IV)

O índice (IV) no título deste artigo é antes de tudo um convite para ler o artigo anterior, caso já não o tenha feito. Isso se deve ao fato de ser esta uma série, com um pretenso crescente, mas sinta-se livre para ignorar estas palavras.
Há algo de complexo na física? Sim, atualmente há (por enquanto). Entender o comportamento global de sistemas cujos componentes sejam simples não é uma tarefa necessariamente fácil. De fato, é essa classe de sistemas que tira o sono dos cientistas hoje.
Imagine um sistema cujos componentes sejam matematicamente bem compreendidos e relativamente simples de se lidar. Podem ser estruturalmente idênticos, se preferir. Façamos então a exigência de que tal sistema seja constituído de um número muito grande destas unidades simples, cada uma uma delas conectada a um número pequeno (em relação ao todo) de "vizinhos". Com isso quero dizer que cada unidade possui um estado interno e influencia o estado de seus adjacentes.
O comportamento deste sistema (que por hora é genérico, mas calma, darei exemplos concretos) pode ser previsível, pode ser periódico, um elemento age sobre o outro, que propaga a ação ao outro e calmamente um "sinal" se propaga pelo todo. Mas pode não ser. Imagine que um elemento só estimule seus vizinhos caso seja estimulado acima de um limite. Então pode acontecer dos elementos de um dado local irem "acumulando" estímulos pequenos e repentinamente todos os elementos daquele local atingem quase que simultaneamente a condição limite e estimulam seus vizinhos, que propagam a ação como numa reação em cadeia. Este comportamento, apesar de determinista, é imprevisível. Dizemos que ocorreu uma avalanche.
Sistemas assim não são exatamente caóticos, pois pode ser possível predizer como o sistema estará no final dos tempos, mas não são regulares pois não podemos prever quando as mudanças ocorrerão. É uma espécie de limiar entre sistemas regulares e sistemas caóticos. Como estes sistemas têm a capacidade de se organizar, devido à ação mútua de seus elementos, dizemos que são sistemas críticos auto-organizados. Quando perturbados, podem dar origem a sistemas caóticos.
Imagine uma pilha de grãos (um montinho). Cada grão age sobre um número reduzido de vizinhos, há muitos grãos na pilha, logo nossa abordagem se justifica. O que acontece se colocarmos delicadamente um novo grão no topo da pilha? A resposta correta a essa pergunta é depende. Pode não ocorrer nada, uma vez que o atrito interno dos grãos pode ser suficiente para sustentar o novo componente e tudo termina irritantemente bem. Porém, se colocarmos um novo grão numa pilha em que sua estabilidade seja crítica, ocorre um deslizamento. Ótimo, agora está divertido, temos um deslizamento, mas fica a pergunta: de que magnitude?
Pois é... isso não dá pra saber. Podemos atacar o problema estatisticamente, vendo que pequenos deslizamentos são mais prováveis que grandes. A probabilidade de ocorrência do deslizamento é inversamente proporcional à sua magnitude. E é só.
Imagine um neurônio isolado. Matematicamente é fácil descrevê-lo, ele toma os estímulos que recebeu de seus vizinhos, mistura e verifica sua função de ativação. Dependendo do tipo de neurônio podemos admitir que ele estimula ou não seus vizinhos caso o estímulo recebido esteja acima de um limiar (sinal binário), que ele pode inibir ou excitar seus vizinhos, ou ainda que ele tenha uma função de ativação suave, com vários valores possíveis de transmissão ou até mesmo linear. Podemos então modelar o neurônio como uma função simples que toma um vetor de sinais transformado por uma matriz e retorna um sinal (um valor). Simples, mas o problema é que num cérebro temos muitos, muitos, muitos neurônios conectados a uns poucos milhares de vizinhos.
É justamente o caso que discutíamos. Nesse sistema pode ocorrer avalanches (de sinais) e sua estabilidade pode ser ameaçada. É fato que isso depende do número de conexões entre os neurônios.
Mas como compreender fenômenos assim? Dado o tamanho do sistema é impraticável uma abordagem analítica, apesar de teoricamente possível, pois seus componentes são simples e "bem comportados". Só podemos atacar estes problemas estatisticamente ou numericamente.
Atacar estatisticamente, para mim pelo menos, é como admitir que não sabe resolver o problema. É só notar o que em toda resposta estatística está implícito: não sei, se ocorrer algo é provável que ocorra tal coisa. Se sua previsão falhar você ainda pode se safar nos 2% que quase nunca ocorrem ;-).
Resolver numericamente não é resolver. É notório que uma solução numérica é uma solução particular para um sistema particular e em geral, não permite generalização. Pense da seguinte forma, imagine que eu lhe diga: a soma de dois números iguais é igual ao seu produto. Ao testar numericamente essa hipótese você toma justamente os números que não poderia: 2 e 2. Claro, 2+2=2*2 e caso você não tome o cuidado de verificá-la com mais cautela, sua hipótese será equivocadamente tomada como verdadeira. É claro que este é um exemplo um tanto simplista, mas sua essência é representativa. Cansei de ver pesquisadores implementando soluções numéricas sem testar a convergência de seus algoritmos. Obviamente, testar convergência nem sempre é fácil (ou viável, pense em prazos e custos), mas é essencial para dar um pouco de credibilidade à resposta encontrada. Mas mesmo assim, ela não é geral e pode esconder armadilhas que só nos daríamos conta se fosse possível uma solução analítica.
Não estou criticando a validade dos métodos numéricos (espere aí, estou sim), eles são essenciais quando não há outra forma de resolver o problema, mas não devemos nos deixar guiar cegamente por eles.
Resumo: se formos pensar em que tipos de sistemas se encaixam nesse modelo exposto acima, facilmente levaríamos um dia inteiro. Sistemas com grande número de partículas, a Internet (por que não?), redes neurais, taludes, pessoas (e seus boatos), etc.... Mas o fato é que não temos como compreender tais sistemas. Nós temos que aprender a senti-los, afinal nosso cérebro não seria um computador quântico portátil? Não é o sistema perfeito para modelar e "rodar" tais simulações?
Um dia ainda verão aqui a semelhança entre redes neurais e computadores quânticos. Até lá apenas aguardem...

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