7/30/2007

As Sociedades Fantásticas III

As Sociedades Telepatas Heterogêneas

Começo dizendo que, para o devido entendimento deste ensaio, é imperativo que leia o anterior (“As sociedades telepatas semi-homogêneas”). Portanto, ao prosseguir, certifique-se de já tê-lo feito.
Continuando esta série de ensaios, proponho a análise das sociedades telepatas heterogêneas. Por sociedade telepata heterogênea, entendemos um conjunto de organismos cuja organização mental permite a individualidade. De forma mais específica, há um contato telepático forte entre as entidades, mas estas podem reter pensamentos, ocultando-os da coletividade como bem entenderem.
Desta forma, um organismo pode viver experiências e ter pensamentos sem ter de se preocupar em dividi-los com a coletividade. A coletividade sequer tomaria consciência de tais atitudes. Entretanto, o indivíduo não poderia ocultar-se para sempre. Algo, algum dia, teria de ser compartilhado ou suspeitas poderiam recair sobre este. O medo agora é de mão dupla, o indivíduo teme ter de revelar algo que poderia ser desaprovado, mas a coletividade teme o indivíduo que oculta demais. Surge o medo do misterioso.
É interessante notar que agora o indivíduo tem a capacidade de ocultar, e portanto administrar, informação. Ocultar informação pode significar deter algo que ninguém mais detém. Significa saber algo que ninguém mais sabe, poder algo que ninguém mais pode. Surge a especialização e com ela, o poder.
Indivíduos são diferentes entre si e o tempo os torna especiais. Se a coletividade sentir que um indivíduo tem características que o torna próprio para administrar outros, este pode se tornar um líder. Surge a hierarquia social.
Outros indivíduos podem não concordar com sua administração e surgem sociedades diferentes. Sociedades estas que podem competir por recursos e querer a saída, ou eliminação, de outros que não concordam com seus modos.
Surge a guerra. Surgem as classes sociais e suas inerentes disputas. Em resumo, uma gama de disputas tanto internas quanto externas.
Primeira conclusão: a disputa é a marca principal da individualidade em uma sociedade.
Por haver indivíduos especiais (ou especialistas) haverá a tendência de se importar mais com a dissolução de uns do que com a de outros. Já podemos chamar tal dissolução de morte, pois agora há perda de informação com a dissolução de um organismo. Isso pode ser bastante penoso para a coletividade. Surgem os laços sociais. Surge a morte. Surge a dor da perda.
Pode ser interessante pensar que indivíduos que passem mais tempo próximos desenvolvam vínculos maiores e assim, os que crescem perto de outros se tornarão mais envolvidos com estes. Surge um conceito que podemos denominar “família”.
Simplesmente do fato de se ter a possibilidade de se ocultar algo de outros de maneira permanente, induziu-se o surgimento de hierarquia social, família e morte. Acho lícito imaginar que as famílias (ou grupos de entes próximos) podem querer perpetuar seus bens apenas entre seus iguais, da mesma forma que seu conhecimento e modo de vida. Surge a tradição e a propriedade. É claro que tanto uma quanto outra podem ter seus efeitos atenuados pelo fato de haver ainda uma comunicação muito boa entre os indivíduos, mas o importante é que estas possibilidades agora existem.
Modos próprios, tradição, hierarquia social e medo da morte abrem juntos um caminho quase certo, a religião. A necessidade de se estabelecer de modo indubitável o certo e o errado.
Podemos nos perguntar neste momento: como pode apenas a perda de parte da informação dos indivíduos perante uma sociedade causar uma diferenciação tão grande entre modelos? Se compararmos com o modelo do ensaio anterior, podemos notar que este aqui contém traços que se aproximam bastante das nossas próprias sociedades e o anterior sequer lembrava uma sociedade humana. Neste caso a telepatia pode servir apenas para atenuar problemas sociais existentes, mas os problemas em si são muito próximos aos que temos.
Podemos neste ponto esboçar culpados para nossas dificuldades. Se não conduzi mal estes ensaios, é a ocultação permanente da informação que abre caminhos para que problemas sociais apareçam. É a falta de uma comunicação melhor entre as pessoas.
Num próximo ensaio gostaria de abordar os graus de comunicação possíveis entre seres e avaliar seu impacto sobre os problemas sociais, bem como o que podemos fazer para melhorar nossa comunicação para dirimir, pelo menos em parte, nossos problemas sociais e trabalhar por um mundo melhor.

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