As Sociedades Fantásticas II
As sociedades telepatas semi-homogêneas
Começo dizendo que, para o devido entendimento deste ensaio, é imperativo que leia o anterior. Portanto, ao prosseguir, certifique-se de já tê-lo feito.
No ensaio anterior pudemos constatar que quase a totalidade dos problemas sociais que a humanidade enfrenta são eliminados quando pressupomos uma comunicação perfeita. Isso posto, prosseguiremos a uma nova fase de nosso estudo reduzindo apenas um pouco essa capacidade de comunicação.
Por sociedade telepata semi-homogênea entendemos um conjunto de organismos cuja organização mental é transparente a todos, a menos de alguns pensamentos, que podem ser privados, mas devem ser revelados à coletividade na iminência do óbito.
Ainda assim persistem boa parte das características listadas anteriormente, tais como ausência de hierarquia social. Porém devemos ser mais judiciosos nesta análise, pois tal fato anteriormente ocorria pela inexistência total de individualidade. Uma certa parcela de individualidade é conservada neste caso, mas torna-se irrelevante devido à necessidade de comunicar a informação individual prestes ao falecimento. Como a opressão social ainda é sentida como opressão generalizada, pois os semi-indivíduos podem fazer-se sentir pelos outros, não há o surgimento de hierarquia social. Poderíamos suspeitar do surgimento de uma hierarquia devido à necessidade que a sociedade tem de que seus componentes desempenhem atividades diferenciadas, mas não é esse o caso, pois a informação relevante à sociedade trafega livremente pelos componentes, o que inibe as especializações.
Desta forma não há hierarquia social, logo não há classes sociais. Também não há ainda o conceito de morte como a entendemos, pois apesar do corpo do componente ser destruído e de haver um evento que diferencia sua existência de sua dissolução, que no caso corresponde à entrada de informação na coletividade devida à morte do componente, sua identidade está preservada e sua informação privada não é perdida.
Como não há perda real de indivíduos e não há hierarquia social, não há religião. Também não há tradição, família ou propriedade, bem como disputas por terra, recursos, enfim, como tínhamos analisado anteriormente.
Porém agora há uma diferença. Os componentes têm pensamentos privados que podem ocultar da coletividade, mas não para sempre. Assim, têm suas próprias opiniões a respeito das coisas, e de como a realidade os impressiona. Mas um dia seus pensamentos poderão ser julgados. E por toda a coletividade. Isso pode causar no semi-indivíduo um sentimento de que deve policiar seus pensamentos para que correspondam aos interesses da coletividade. Qualquer deslize pode significar um julgamento negativo sobre sua existência, de maneira irreversível e no momento mais crítico de sua estada no universo: sua dissolução.
Como esta preocupação é constante, só consigo traduzir este sentimento de uma única forma: o medo. Estes seres viverão num medo perene. Medo de terem seus métodos e conclusões questionados e não poderem sequer defender-se para formar a imagem de sua vida que permanecerá para todo o sempre entre seus iguais.
É interessante notar que o simples fato de alguém não comunicar tudo o que faz ou pensa em tempo real gere medo. É um medo ao qual estamos acostumados, mas geralmente o relegamos a uma existência subconsciente, como uma necessidade de auto afirmação, necessidade de seguirmos os ditames de uma moda ou até mesmo aquelas regras de bom comportamento, por mais ilógicas ou inconsistentes que possam parecer.
Convivemos com isso, mas isso está tão profundamente enterrado em nós, que na maior parte do tempo não nos damos conta de sua presença.
Mas já podemos reconhecer um pouco de nós nestes seres. Futuramente analisaremos as conseqüências de termos parte do conhecimento não compartilhado, ou seja, especializações.


2 Comments:
Será que só o medo surgiria nesta sociedade? O fato de haver algum conhecimento exclusivo não teria também como conseqüência o surgimento do poder?
05/04/2007
Acho um estágio prematuro demais pra se falar em poder, pois apenas sentimentos muito interiores são divididos, tendo depois de ser compartilhados. Tentar exercer poder sobre os outros pode acarretar em desonra no momento da morte, então mesmo o poder ainda pode estar subjulgado pelo medo. Saber que em vida alguém tentou se sobrepor sobre outro, pode irritar a coletividade. Poder surge depois, hehehe. Abraço.
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